Sábado, 30 de Maio de 2009
Tal mãe, tal desconhecida

Ontem, consegui ir sentado no metro. Isto, por si só, era já uma informação digna de merecer um post neste reputado blog, mas há mais.

Fui sentado em frente a duas mulheres: uma delas com os seus cinquenta e tal, a outra na casa dos vinte. Uma magríssima, delgadíssima, esquelética, braços esguios, sem busto; outra anafada, e como ia sentada, mais se notavam as gorduras acumuladas. Mas ambas de feições parecidíssimas: o mesmo olhar triste e vago, o mesmo cabelo loiro puxado atrás num rabo-de-cavalo, os mesmos dois dentes que não cabem na boca e teimam a vir cá para fora. Questões etárias e lipídicas à parte, eram iguais.

Pensei logo que deviam ser mãe e filha. Era o raciocínio lógico, a gordura nem sempre é hereditária. A mãe podia comer muito, a filha não. A mãe podia estar assim por ter tido meia dúzia de filhos, sendo aquela senhora ao lado dela um deles e ser solteira e sem rebentos. A mãe podia ter uma doença qualquer que a fizesse chegar àquele estado. A filha idem, que também era magra demais.

Comecei a devanear sobre o passado daquelas senhoras. A filha ainda vivia com a mãe. A mãe estava feliz por viver com a filha, pois separou-se do marido há uns anos devido aos problemas destes com o álcool. Foi complicado ganhar independência financeira, mas depois de alguns períodos de fome, arranjou emprego numa cozinha de um snack-bar. Sempre fora boa cozinheira, daí se estranhar ainda mais a magreza da filha. Filha essa, que trabalha numa loja de roupa, num pequeno centro comercial.

Ontem era sexta-feira, dia de folga da mãe, a filha saía às 17h30, decidiram e ir dar uma volta pela cidade. Andaram pela baixa, experimentaram roupa, a mais nova tamanho "XS", a mãe tudo acima do "L". Nunca sorriram, não eram de sorrir. Mas divertiram-se com o homem que lhe impingiu um balão em forma de cão.

Foram lanchar a um café que tem um rissóis de carne divinais, sempre quentes, com o cheiro da vitela a convidar sempre mais um. Deliciaram-se, a mais nova com um rissol, a mãe com três. Três apenas, não quer abusar. Pediram alguns para levar para o jantar.

Voltavam agora para casa. Iam jantar, iam jogar um jogo qualquer de cartas e iam dormir, que no dia seguinte ambas trabalham logo de manhã.

Todos estas minhas conjecturas foram por água abaixo quando a mulher gorda se levantou e saiu, enquanto a magra se deixou ficar sentada, sempre a olhar para nenhures. Senti-me derrotado: nunca serei como Poirot. Segui pistas demasiado erróneas: os pesos nunca devem ser objecto de observação por não terem causa fixa; e a ideia dos rissóis de vitela só me terá ocorrido porque eram 18h30 e ainda não tinha lanchado.


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por diogohoffbauermdias às 12:02
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Sábado, 23 de Maio de 2009
A saúde vem de autocarro e volta a passo

    «Menino, não vai abrir a janela…»

«Tem de ser. É para o bem de todos.»
Estava sentado no meu cantinho no autocarro. Normalmente, quando há disponibilidade, sento-me nos bancos de trás, colado à janela. Julgo-me, aí, imune às doenças que normalmente assolam os autocarros, desde a mais vulgar constipação ao mais mortal cancro. Sentei-me, e porque os autocarros portugueses não são feitos para pernas grandes, recostei-me bem na cadeira, da forma mais confortável. A viagem não ia ser demorada, mas a falta de quantidade não significa falta de qualidade. Eu já estava cansado, a turbulência do atrito do autocarro com o pavimento causa-me um sono desgraçado, iria inevitavelmente passar pelas brasas, e desta forma já o fazia de forma cómoda, evitando futuras cãibras. O sol inclinava-se e batia-me bem do lado esquerdo da cara, molengão e preguiçoso.
Tudo se conjugava para uma boa viagem de autocarro, e uma consequente boa sesta. E foi precisamente quando o João Pestana estava a chegar, que foi escorraçado por uma tosse doentia, forte, cheia de porcaria e seguida de uma pronta cuspidela com origem na mais profunda víscera. Era um homem, aí com cinquenta e cinco para cima, estrondoso bigode.
Aquele escarro serviu para anunciar que se ia sentar. E tudo indicava que seria ao meu lado. Confirmaram-se as piores suspeitas.
«Estou à rasca dos pulmões», roncou o senhor, para nenhures. «Estou sem dormir há um ror de tempo por causa desta porcaria».
No velho oeste, alguns cowboys passavam o dia no bar à espera de um qualquer conflito, só para poderem desafiar algum coitado para um duelo mortal de rapidez de disparo, reflexos velozes, destreza no gatilho, sangue-frio no confronto. Quase dois séculos depois, do outro lado do Atlântico, temos as mulheres que viajam de autocarro, com o único propósito de disputar enfermidades. Uma pequena senhora, sensivelmente dez anos mais velha do que o senhor queixoso, viu ali uma grande oportunidade de ostentar as suas moléstias.
«E eu? Eu estou que não me posso mexer por causa das artroses nos joelhos». A dama, ao falar, mostrou que tinha apenas três dentes à vista desarmada, mas acredito que, com um bocadinho de esforço e coragem, eu acabaria por ver um quarto dente.
«Ó, minha senhora, também eu já sofri muito com isso», ripostou o senhor do bigode farfalhudo. Não devia usar os bigodes para os distinguir, já que a senhora também tinha uma rica penugem a ornamentar-lhe o lábio superior. Mas, de facto, é quase impossível falar do sujeito queixoso sem referir o bigode. «Havia de ter as dores que eu tenho na anca, de há uns anos ter levado com um carro no coiro, aí é que havia de ver!»
«Ó, meu senhor, trombadas já eu levei muitas, até já apanhei no focinho do meu falecido marido, e estou aqui. Havia era de ter a minha coluna, parecem alfinetes que se me espetam… Aí é que ia ver o que era bom para a tosse!»
«Aflito da tosse ando eu já, minha senhora. E ando a tomar toda a porra que me dão e a filha da puta da espectrulação não há meio de passar!»
O João Pestana já havia sido contaminado. Eu seria o próximo, pelo que joguei pelo seguro: levantei-me e abri a janela. Um outro senhor, já de mais idade, queixou-se do frio e disse-me:
«Menino, não vai abrir a janela…»
«Tem de ser. É para o bem de todos.»


por diogohoffbauermdias às 20:59
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