Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Reis da Selva

Uma das cem mil e quinhentas reportagens que eu já vi sobre a queda do avião no Oceânico Atlântico levou-me a outra dimensão. Não a uma dimensão já avançada como semelhante à do Lost, em que alguns dos tripulantes – o príncipe deve ter sido um deles, para os estereótipos de que se serve a série resultar – sobrevivem e caem numa ilha e lutam por sobreviver, contra adversidades desde monstros a estações experimentais. A dimensão para a qual esta reportagem me levou foi a uma dimensão real, em que vivemos, em que nos arrastamos, em que apodrecemos. É a dimensão onde os repórteres se alimentam, de uma forma perversamente voraz, do choque e do terror das pessoas.

Uma senhora estava completamente assombrada, submersa em si própria, no seu mundo, talvez noutra dimensão. Morrera-lhe um familiar, ela acabava de saber. Ainda não tinha engolido tudo, notava-se. A informação ainda se prendia na garganta; no máximo, tinha chegado ao esófago. E é neste estado de semi-paralisia da alma que a senhora se vê rodeada por uma vara de repórteres e fotógrafos e operadores de câmara. Atropelam-se, reina a lei do mais forte, quem superar os outros fica com a carne morta. São abutres com garra, lutam selvaticamente uns contra os outros em busca do melhor ângulo do semblante amargurado da vítima, do melhor brilho da lágrima, da melhor palavra angustiada que dê título, que provoque choque, apertos no estômago, comentários sussurrados.
Os abutres lutam, vale tudo excepto arrancar olhos, vêem-se sinais agressivos de todos os lados, cheira a sangue, junta-se a isto o sangue das vítimas do acidente do avião e temos um cocktail explosivo. Estendem-se microfones, gravadores; os operadores de câmara usam os seus bichos para rasgar caminho. Acumulam-se os animais, cada vez mais juntos, desordenados, a fazer lembrar uma recambolesca manada, e a assumir pervesas linhas próprias de orgia, pelo suor, pelo esforço, pelo êxtase, pelo bacanal.
A mulher, indiferente a tudo, indiferente ao mundo, passou por aquele tumulto sem tirar os olhos do nada. Quase se comerem vivos em vão, as hienas.
Tenho pena pela classe, ambicionando eu vir a pertencer-lhe. Bem, não àquela classe. No reino animal também se distinguem necrófagos e restante fauna.


por diogohoffbauermdias às 22:08
link do post | Comentar | Ver comentários (3) | Adicionar aos favoritos
|

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Domingo pouco Desportivo

Ontem falei aqui sobre a preguiça, porque ontem foi domingo, e domingo é o meu dia da preguiça. Se formos rigorosos, todos os dias da minha vida são dias da preguiça, de uma forma ou de outra. Mas os domingos são particularmente ociosos.

Aos domingos, não costumo olhar para o relógio vez alguma.
Ontem, foi uma excepção. (Vamos, mais uma vez, deixar o rigor de lado quando uso a palavra “ontem”, porque, com justeza, deveria ter usado a palavra “hoje”, visto que já passava da meia-noite há algum tempo. Mas, para o intuito deste texto, o facto de tudo se passar num domingo dá mais magia à história.) Dizia, ontem foi uma excepção. Olhei para o relógio, porque questionei a minha própria sanidade.
Os erros televisivos devem ser devem ser desculpados como qualquer outro, e eu, como estudante de jornalismo, tenho isso bem marcado. Não que rezemos constantes “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, sem bem que estas orações assentam como uma luva no triângulo “televisão – ERC – povo”. Mas sabemos que, por detrás dos anúncios, dos programas, até das televendas, existem humanos, e o humano, ao contrário dos restantes animais, erra. Mas o erro ao qual assisti ontem indignou-me.
Foi no segundo intervalo do «Domingo Desportivo», programa que eu assisto impreterivelmente, quando anunciaram o jogo «F.C. Porto – Sporting de Braga», às 19h15, na RTP1. Acontece que já era meia-noite e pico, e eu já tinha assistido àquela partida horas antes. Questionei se teria sonhado tudo, e até esperei quê sim. À parte da minha demência, sobre a qual de preocuparia depois, o Porto tinha empatado, e se o jogo ocorresse outra vez havia a hipótese de o vencer. Mas parece que foi mesmo um erro televisivo, de alguém que, certamente, estava louco por ver o Porto jogar outra vez.
Fosse como fosse, o facto de questionar a minha consciência foi um sinal de que era hora de parar. Desliguei a TV contaminada com o crasso erro da RTP e fui para a cama.
(Aproveito para dizer que ter aulas de manhã a uma segunda-feira, com Domingo Desportivo no dia anterior, é pura maldade. Vale-me a mim que o campeonato acabou, e com ele o programa. Vou finalmente poder assistir a uma aula de História Contemporânea de Portugal com os olhos abertos. Vou finalmente saber como é.)


por diogohoffbauermdias às 21:33
link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
|

Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Como acabar uma relação em cento e quarenta caracteres

Inquestionavelmente, tem havido uma evolução tecnológica desde o tempo em que se caçavam mamutes com clavas toscas até agora, tempo da Bimbi e dos colchões ortopédicos. E eu, até ao aparecimento do Twitter, sempre pensei que esta fosse uma evolução positiva. Agora, com o Twitter, dou por mim a angustiar e a questionar-me porque não nasci há uns séculos atrás, para poder viver sem saber quais os meus amigos que estão, de momento, no quarto de banho.

Para quem não sabe o que é o Twitter, vou tentar explicar. Seja como for, isto não passa de uma explicação de um leigo nestas novas formas de «comunicação». E aviso desde já que, depois de lerem este esclarecimento, vão perceber ainda menos a função desta ferramenta. O Twitter é, basicamente, um site, onde as pessoas escrevem o que quiserem, desde que dentro do limite máximo de cento e quarenta caracteres. Uma mistura de blog com a composição nas provas de aferição do 6º ano, portanto. E este limite é uma autêntica prisão. Isto, sim, é censura. O logótipo do Twitter devia ser um lápis azul, e não um pássaro azul.

Eu mesmo, que sou uma pessoa que facilmente condensa os pensamentos em poucas palavras - provavelmente por não conhecer muitas, ou por os meus pensamentos não terem muito que se lhe diga - não consigo dizer seja o que for em cento e quarenta caracteres. Eu ia no metro, noutro dia, quando me ocorreu uma frase brilhante, e eu pensei: «É desta que eu uso o Twitter". Pareceu-me o meio ideal para divulgar uma frase soberba ao mundo que merece conhecê-la. Mas acontece que a frase «A prova de que o amor existe mesmo e é lindo é o facto de ser fantástico ver duas pessoas feias apaixonadas» tem mais do que cento e quarenta caracteres, e uma frase destas não merece serem-lhe cortadas palavras. Seria como mutilar as pernas do Usain Bolt.

A verdade é que esta loucura está a fazer um sucesso estrondoso, e sucedem-se as notícias de escandâlos e supostos crimes como "cyberbullying"e já há casos de divórcios registados cuja única razão apontada foi o vício desta ferramenta.

Ai, bom velhos tempos em que se caçavam mamutes com clavas toscas...



por diogohoffbauermdias às 21:20
link do post | Comentar | Ver comentários (1) | Adicionar aos favoritos
|

↘Mais sobre mim
↘Pesquisar neste blog
 
↘Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


↘Posts recentes

Reis da Selva

Domingo pouco Desportivo

Como acabar uma relação e...

↘Despensa

Junho 2009

Maio 2009

↘tags

todas as tags

↘Links
blogs SAPO
↘subscrever feeds