Sábado, 23 de Maio de 2009
A saúde vem de autocarro e volta a passo

    «Menino, não vai abrir a janela…»

«Tem de ser. É para o bem de todos.»
Estava sentado no meu cantinho no autocarro. Normalmente, quando há disponibilidade, sento-me nos bancos de trás, colado à janela. Julgo-me, aí, imune às doenças que normalmente assolam os autocarros, desde a mais vulgar constipação ao mais mortal cancro. Sentei-me, e porque os autocarros portugueses não são feitos para pernas grandes, recostei-me bem na cadeira, da forma mais confortável. A viagem não ia ser demorada, mas a falta de quantidade não significa falta de qualidade. Eu já estava cansado, a turbulência do atrito do autocarro com o pavimento causa-me um sono desgraçado, iria inevitavelmente passar pelas brasas, e desta forma já o fazia de forma cómoda, evitando futuras cãibras. O sol inclinava-se e batia-me bem do lado esquerdo da cara, molengão e preguiçoso.
Tudo se conjugava para uma boa viagem de autocarro, e uma consequente boa sesta. E foi precisamente quando o João Pestana estava a chegar, que foi escorraçado por uma tosse doentia, forte, cheia de porcaria e seguida de uma pronta cuspidela com origem na mais profunda víscera. Era um homem, aí com cinquenta e cinco para cima, estrondoso bigode.
Aquele escarro serviu para anunciar que se ia sentar. E tudo indicava que seria ao meu lado. Confirmaram-se as piores suspeitas.
«Estou à rasca dos pulmões», roncou o senhor, para nenhures. «Estou sem dormir há um ror de tempo por causa desta porcaria».
No velho oeste, alguns cowboys passavam o dia no bar à espera de um qualquer conflito, só para poderem desafiar algum coitado para um duelo mortal de rapidez de disparo, reflexos velozes, destreza no gatilho, sangue-frio no confronto. Quase dois séculos depois, do outro lado do Atlântico, temos as mulheres que viajam de autocarro, com o único propósito de disputar enfermidades. Uma pequena senhora, sensivelmente dez anos mais velha do que o senhor queixoso, viu ali uma grande oportunidade de ostentar as suas moléstias.
«E eu? Eu estou que não me posso mexer por causa das artroses nos joelhos». A dama, ao falar, mostrou que tinha apenas três dentes à vista desarmada, mas acredito que, com um bocadinho de esforço e coragem, eu acabaria por ver um quarto dente.
«Ó, minha senhora, também eu já sofri muito com isso», ripostou o senhor do bigode farfalhudo. Não devia usar os bigodes para os distinguir, já que a senhora também tinha uma rica penugem a ornamentar-lhe o lábio superior. Mas, de facto, é quase impossível falar do sujeito queixoso sem referir o bigode. «Havia de ter as dores que eu tenho na anca, de há uns anos ter levado com um carro no coiro, aí é que havia de ver!»
«Ó, meu senhor, trombadas já eu levei muitas, até já apanhei no focinho do meu falecido marido, e estou aqui. Havia era de ter a minha coluna, parecem alfinetes que se me espetam… Aí é que ia ver o que era bom para a tosse!»
«Aflito da tosse ando eu já, minha senhora. E ando a tomar toda a porra que me dão e a filha da puta da espectrulação não há meio de passar!»
O João Pestana já havia sido contaminado. Eu seria o próximo, pelo que joguei pelo seguro: levantei-me e abri a janela. Um outro senhor, já de mais idade, queixou-se do frio e disse-me:
«Menino, não vai abrir a janela…»
«Tem de ser. É para o bem de todos.»


por diogohoffbauermdias às 20:59
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5 comentários:
De Rita M a 23 de Maio de 2009 às 21:22
Andar de autocarro é de facto arriscado.
No Verão é o cheiro a suor de quem não conhece as maravilhas de um bom desodorizante, no Inverno sao os espirros e a tosse que teimam em pairar no ar.
Ainda bem que tu andas quase sempre de metro, que sempre é mais "arejado".


De diogohoffbauermdias a 23 de Maio de 2009 às 21:23
Tem mais portas, é por isso. Mas hoje pudemos escolher e fomos de autocarro.


De Teresa Hoffbauer a 24 de Maio de 2009 às 16:34
Este desafio vem mesmo a propósito.
O blogue fica com o selo do Rio de Janeiro e a Rita responde às perguntas. OK?

Diogo também podes responder!!!

1 – A pessoa selecionada deve fazer uma lista com oito coisas que gostaria de fazer antes de morrer.

2 - É necessário que se faça uma postagem relacionando estas oito coisas, não importando o que seja; é necessário que a pessoa explique as regras do jogo.

3 – Ao finalizar, devemos convidar oito parceiros de blogs.

4 – E finalmente, deixar se possível um comentário para quem nos convidou, e informar os convidados.


De Rita M a 23 de Maio de 2009 às 21:25
Ao sábado não há tanta movimentação ^^


De andre a 31 de Maio de 2009 às 23:09
e n veio nenhuma senhora, agarrar no corrimao a tua beira, olhar pa ti com cara d má e dizer "estes jovens d hj em dia n tem respeito por ninguem. ta aqui uma pessoa p s sentar e nada!!" ??


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