Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Saltou-lhe a tampa

Hoje vi uma caneta sem tampa. O que não se encontrou foi a tampa sem caneta, pelo que a caneta, provavelmente, ainda se encontra sem tampa. E não se prevê que se voltem a encontrar tão cedo. Nasceram juntas, morrerão separadas, algo só ao nível das grandes novelas da TVI e de programas old school como o eterno Ponto de Encontro. A tampa e a caneta, a caneta e a tampa. A tampa sem poder tapar a caneta torna-se dispensável, inútil, passa a não ter qualquer sentido em existir. Em tempos, fora essencial para manter a caneta a funcionar, as palavras a fluir, uma conservadora de tinta, aplicada, eficaz na sua função. Agora, vale o mesmo que nada. Servirá talvez para um qualquer miúdo roer para se entreter nas aulas – miúdo ao qual me alio – mas não mais que isso.

A caneta, essa, tem uma sentença. Uma caneta sem tampa é como um ser com cancro terminal: está condenado a morrer em pouco tempo. Tal como os órgãos se vão fechando, o bico da caneta vai ficando cada vez mais seco; tal como a dificuldade em falar e se exprimir do ser humano, também as palavras começam a custar a sair do bico da caneta. A tinta não flui, as letras não se desenham, as ideias não se concretizam. Grande história que podia ter tido aquela caneta. Podia ter sido usada para assinar tratados de Paz no Médio Oriente; podia ter sido usada para assinar duvidosos documentos no BPN; podia ter sido usada para escrever fantásticas histórias de um mamute voador e das suas viagens; podia ter sido usada para censurar documentos, não é lápis, mas é azul; podia ter sido usada para preencher a papelada que se amontoa na secretária da D. Maria dos Serviços Sociais; podia ter sido usada para entreter as mãos de um qualquer comentador político incoerente na SIC Notícias.
Mas não foi. Sem tampa, nunca mais servirá para nada. Morrerão separados, por estarem separados. É triste depender assim de alguém. Deus não foi justo.

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por diogohoffbauermdias às 20:26
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